Atreva-se a dizer que não é legal
A televisão estava ligada no noticiário, mas os olhos eram da janela e os ouvidos dormiam. Foi preciso o cachorro da vizinha derrubar um móvel no andar de cima para ele se importar com o aparelho ligado. A televisão era qualquer coisa viva na casa que não pedia atenção, melhor que um cachorro derrubando móveis.
Amparado por algum escândalo no Senado e os números da gripe do porco, usou a quarta garrafa de cerveja para acessar alguma vontade. Comeria salsicha crua, dançaria sozinho, ou fumaria um cigarro, já que não era fumante. Sentiu vontade de fazer os três.
Comeu, dançou, fumou. Prevendo a falta de sono, abriu a quinta cerveja e levou-a para a madrugada. Pensou que dalí uma ou duas garrafas não precisaria se preocupar com o que faria no dia seguinte, um domingo, pois apenas curaria a ressaca deitado all day long.
Sentiu a dor da unha encravada do dedão esquerdo do pé quando tropeçou no vídeo-game largado no chão da sala. Percebeu que não cuidava das unhas, então lembrou dos dentes. Foi até o espelho do banheiro checá-los. Um pedaço da resina que colocara há dois anos em um dos caninos estava lascada. Talvez o amendoim japonês de ontem. Ou aquele bala importada de duas semanas atrás. Reparou nas olheiras, herança familiar acentuada pelas noites mal dormidas (ou não dormidas). Reparou também que estava mais magro.
Não, não estava acabado. Estava melhor do que nunca. Repetia o Drummond "porém meu ódio é o melhor de mim", lido na orelha de algum livro. Estava incrível. Não era insônia, era vontade do corpo de ficar ligado, sentindo aquela corrente elétrica, uau. Lamentou quem nega o ódio, quem quer ser "correto" demais para odiar alguma coisa. Por que o medo? Por que mamãe reprimia toda frase que começava com "eu odeio..."? Diga apenas que não gosta, meu filho, odiar é muito forte. Tão forte quanto amar, mamãe. Ele acreditava no amor não por sentí-lo, mas por ter certeza de que para um sentimento tão intenso e verdadeiro quanto o ódio existe outro extremo.
O contrário da paixão é a raiva. Raiva não é ódio. Se podemos nos apaixonar várias vezes, mas amar apenas uma ou duas, existe ódio verdadeiro. Por que ninguém quer encontrar o ódio de sua vida?
Lamentou a mediocridade das pessoas. Um sentimento, qualquer que seja, desde que seja real, intenso, dá forças. Dá forças suficientes para levantar um caminhão. Ele conseguiu erguer pelo menos uma das rodas da frente de um Scania naquela tarde. Bêbado, incrível, invencível, odiando como nunca.
Suspira-se de amor, urra-se de ódio. Urrou comendo salsicha, urrou mais forte dançando, urrou de leve fumando, urrou levantando o caminhão. O melhor urro de todos, o mais profundo, foi quando deu com a unha encravada no vídeo-game.
Amparado por algum escândalo no Senado e os números da gripe do porco, usou a quarta garrafa de cerveja para acessar alguma vontade. Comeria salsicha crua, dançaria sozinho, ou fumaria um cigarro, já que não era fumante. Sentiu vontade de fazer os três.
Comeu, dançou, fumou. Prevendo a falta de sono, abriu a quinta cerveja e levou-a para a madrugada. Pensou que dalí uma ou duas garrafas não precisaria se preocupar com o que faria no dia seguinte, um domingo, pois apenas curaria a ressaca deitado all day long.
Sentiu a dor da unha encravada do dedão esquerdo do pé quando tropeçou no vídeo-game largado no chão da sala. Percebeu que não cuidava das unhas, então lembrou dos dentes. Foi até o espelho do banheiro checá-los. Um pedaço da resina que colocara há dois anos em um dos caninos estava lascada. Talvez o amendoim japonês de ontem. Ou aquele bala importada de duas semanas atrás. Reparou nas olheiras, herança familiar acentuada pelas noites mal dormidas (ou não dormidas). Reparou também que estava mais magro.
Não, não estava acabado. Estava melhor do que nunca. Repetia o Drummond "porém meu ódio é o melhor de mim", lido na orelha de algum livro. Estava incrível. Não era insônia, era vontade do corpo de ficar ligado, sentindo aquela corrente elétrica, uau. Lamentou quem nega o ódio, quem quer ser "correto" demais para odiar alguma coisa. Por que o medo? Por que mamãe reprimia toda frase que começava com "eu odeio..."? Diga apenas que não gosta, meu filho, odiar é muito forte. Tão forte quanto amar, mamãe. Ele acreditava no amor não por sentí-lo, mas por ter certeza de que para um sentimento tão intenso e verdadeiro quanto o ódio existe outro extremo.
O contrário da paixão é a raiva. Raiva não é ódio. Se podemos nos apaixonar várias vezes, mas amar apenas uma ou duas, existe ódio verdadeiro. Por que ninguém quer encontrar o ódio de sua vida?
Lamentou a mediocridade das pessoas. Um sentimento, qualquer que seja, desde que seja real, intenso, dá forças. Dá forças suficientes para levantar um caminhão. Ele conseguiu erguer pelo menos uma das rodas da frente de um Scania naquela tarde. Bêbado, incrível, invencível, odiando como nunca.
Suspira-se de amor, urra-se de ódio. Urrou comendo salsicha, urrou mais forte dançando, urrou de leve fumando, urrou levantando o caminhão. O melhor urro de todos, o mais profundo, foi quando deu com a unha encravada no vídeo-game.
5 adendos:
foi lindo.
é preciso coragem pra escrever sobre estas coisas.
e coragem você tem.
concordo com essa do ódio.
você nem sabe como...
Concordo com a Nah, não é uma coisa que se escreva por escrever. E, eu, que vim aqui ingênua agradecer o seu comentário no meu blog, topei com uma leitura que vai ficar me incomodando hoje o dia todo, tenho certeza.
Muito bom!
Bjo
Bruna
quase eu hoje, tirando o fato de que amanhã é segunda, não domingo, o que complica um pouco mais o meu ódio e a minha ressaca.
Parei aqui por causa do blog da Bechara, nem esperava conhecer uma leitura tão facinante.
Fico me indagando, será que eu odeio de verdade alguma coisa? Ainda não sei a resposta; hoje eu sei que sinto Raiva.
Otimo blog. parabéns!
Postar um comentário